sexta-feira, 7 de junho de 2013

Intimidade

"No coração da mina mais secreta, 
No interior do fruto mais distante, 
Na vibração da nota mais discreta, 
No búzio mais convolto e ressoante, 

Na camada mais densa da pintura, 
Na veia que no corpo mais nos sonde, 
Na palavra que diga mais brandura, 
Na raiz que mais desce, mais esconde, 

No silêncio mais fundo desta pausa, 
Em que a vida se fez perenidade, 
Procuro a tua mão, decifro a causa 
De querer e não crer, final, intimidade." 

(Intimidade - José Saramago, in Os Poemas Possíveis)

Der Himmel auf Erden


"Wenn Worte meine Sprache wären
Ich hätt dir schon gesagt
In all den schönen Worten
Wie viel mir an dir lag"

(Wenn Worte meine Sprache wären - Tim Bendzko)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O beijo mata o desejo


"Não te beijo e tenho ensejo 
Para um beijo te roubar; 
O beijo mata o desejo 
E eu quero-te desejar.

-

Porque te amo de verdade, 
'stou louco por dar-te um beijo, 
Mas contra a tua vontade 
Não te beijo e tenho ensejo. 

Sabendo que deves ter 
Milhões deles p'ra me dar, 
Teria que enlouquecer 
Para um beijo te roubar. 

E como em teus lábios puros, 
Guardas tudo quanto almejo, 
Doutros desejos futuros 
O beijo mata o desejo. 

Roubando um, mil te daria; 
O que não posso é jurar 
Que não te aborreceria, 
E eu quero-te desejar!"    

(O beijo mata o desejo - António Aleixo, in Este Livro que Vos Deixo...)

Alô, Fevereiro!


"Todo mês de fevereiro, morena
Carnaval te espera"

(Alô, Fevereiro - Roberta Sá)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A zona do mar que meu peito te entregou

"Não me fizeste sofrer 
mas esperar. 

Naquelas horas 
emaranhadas, cheias 
de serpentes, 
quando 
a alma me caía e eu me afogava, 
tu vinhas-te aproximando, 
tu vinhas nua e arranhada, 
tu chegavas ensanguentada ao meu leito, 
noiva minha, 
e então 
caminhávamos toda a noite dormindo 
e, quando acordávamos, 
estavas intacta e nova, 
como se o vento grave dos sonhos 
acendesse de novo 
o fogo da tua cabeleira 
e em trigo e prata submergisse 
teu corpo até torná-lo deslumbrante. 

Eu não sofri, meu amor, 
esperava-te apenas. 
Tu precisavas de mudar de coração 
e de olhar 
depois de tocares a profunda 
zona do mar que meu peito te entregou. 
Precisavas de sair da água 
pura como uma gota erguida 
por uma onda nocturna. 

Noiva minha, tu precisaste 
de morrer e de nascer, eu esperava-te. 
Não sofri a procurar-te, 
sabia que virias, 
mas outra, com o que adoro 
da mulher que não adorava, 
com teus olhos, tuas mãos e tua boca, 
mas com outro coração, 
que amanheceu a meu lado 
como se sempre tivesse estado ali 
para continuar comigo para sempre." 

(Tu vinhas - Pablo Neruda, in Os Versos do Capitão)

Não seria eu


"Se não fossem as minhas malas cheias de memórias
Ou aquela história que faz mais de um ano
Não fossem os danos
Não seria eu"

(Capitão Gancho - Clarice Falcão)

terça-feira, 4 de junho de 2013

Que o seu perfume suavize o momento

"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio,
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o o’bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço."

(Lídia - Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, in Odes)

Pra te acalmar


"Passo essa canção pra te acalmar
Esteja morena, você onde estiver
Achada no peito de um outro protetor ou solta
Que a gente na vida foi feito pra voar"

(Pra te acalmar - Marcelo Camelo)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Me leve

"Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento."

(Cantiga para não morrer - Ferreira Gullar, in Dentro da Noite Veloz)

Seu sorriso é o que eu preciso


"As mil e uma noites que virão são suas
E meu, só um minuto antes do sol nascer
Mas se você pedisse uma fração da eternidade
Eu me virava, e o tempo era...

Seu sorriso é que eu preciso
Pra abraçar o mundo e muito mais
Sua ausência me condena à dor da saudade"

(Dois Sorrisos - Móveis Coloniais de Acaju e Leoni)

domingo, 2 de junho de 2013

Até ser mar


"O amor nos condena: 
demoras 
mesmo quando chegas antes. 
Porque não é no tempo que eu te espero. 

Espero-te antes de haver vida 
e és tu quem faz nascer os dias. 

Quando chegas 
já não sou senão saudade 
e as flores 
tombam-me dos braços 
para dar cor ao chão em que te ergues. 

Perdido o lugar 
em que te aguardo, 
só me resta água no lábio 
para aplacar a tua sede. 

Envelhecida a palavra, 
tomo a lua por minha boca 
e a noite, já sem voz 
se vai despindo em ti. 

O teu vestido tomba 
e é uma nuvem. 
O teu corpo se deita no meu, 
um rio se vai aguando até ser mar." 

(A Demora - Mia Couto, in Idades, cidades, divindades)

As noites, as casas, as ruas...


"E lá no céu os astros
Num arranjo surpreendente
Se buscavam como a gente
Pelo menos tinha essa ilusão

São milhares de estrelas
Singulares letras vivas no céu"

(As noites - Skank)

sábado, 1 de junho de 2013

A força que te dobrou

"Calado ao pé de ti, depois de tudo, 
Justificado 
Como o instinto mandou, 
Ouço, nesta mudez, 
A força que te dobrou, 
Serena, dizer quem és 
E quem sou." 

(Paz - Miguel Torga, in Diário)

Tudo quer alcançar você



"A minha voz que era
da amplidão, do universo, da multidão
Hoje canta só por você"

(Sou você - Caetano Veloso)